meu entulho querido

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Coletânea de trechos de Nelson Rodrigues

d’A Cabra Vadia

(…) E o Vianinha, em conversa comigo, falou em largar o teatro. Quer ser outra coisa. Deprimido, chegava ao patético, raiando pelo sublime. Quando falou em largar o teatro, tive ímpetos de aplaudi-lo como na ópera: — “Bravos! Bravíssimo!”. Quase, quase lhe disse: — “Seja vendedor de chicabon, de laranja, de cachorro-quente ou de grapete. Mas não seja poeta, não seja artista, não seja intelectual”. O que importa é não ser nem Sartre, nem Éluard.

Vejam vocês: — os jornais gastam tinta e papel; a televisão gasta a sua imagem; o rádio gasta os seus microfones; nós gastamos a nossa paciência. E tudo para Neruda proclamar que está com os dois lados. Só imagino a amarga perplexidade do leitor, do ouvinte, do telespectador. Pablo Neruda é um dos maiores poetas do mundo; quase prêmio Nobel; amigo de Sartre e por Sartre amado; homem de sensibilidade, de pensamento, de imaginação. Era de se esperar que visse a invasão através de uma óptica própria e monumental. Sim, ele saberia dizer verdades jamais suspeitadas. Muito bem: — e o poeta me sai um Luvizaro. Ou por outra: — nem o Luvizaro teria descaro tamanho. E é um intelectual. Chamado a opinar sobre o expurgo de intelectuais, diz: — não pode condenar a Rússia, porque tem amigos lá; tampouco pode condenar a Tchecoslováquia, porque também tem amigos na Tchecoslováquia. Agora compreendo o desespero de um amigo meu. Fez dois ou três ensaios literários e desistiu da literatura. Um dia, alguém o apresentou como “intelectual”. Corrigiu: — “Não sou intelectual”. O outro insiste: — “É intelectual, sim”. O meu amigo apontou o dedo: — “Se me chamar de intelectual outra vez, parto-lhe a cara”, É triste, é humilhante ser Neruda.

Eis o que aprendi com Roberto e meu pai: — o importante é não matar. Nada mais doce do que nascer, viver, envelhecer e morrer. E não ser jamais assassino. Nunca me esqueço do que aconteceu com um dos meus amigos. Gostou de uma menina e, no final da tarde, os dois passeavam, na praça Saenz Peña, de mãos dadas. Um dia, a menina crispa a mão no braço do bem-amado; diz: — “Olha Fulano”. Fulano era o ex-namorado da garota, um brutamontes, que aprendia judô, caratê etc. etc. E, segundo se dizia, estava esperando, para qualquer momento, o seu primeiro ataque epilético. O ex-namorado barrou-lhe a passagem; abotoa o meu amigo: — “Quando se encontrar comigo… Cala a boca. Quando se encontrar comigo, atravesse a rua. Ou lhe parto a cara”. O ofendido, branco, não disse uma palavra. E o outro: — “Agora, suma. Ande. Suma”. O rapaz baixou a cabeça e correu.
De noite, a moça liga para ele, aos soluços. Quase não podia falar. O humilhado, o ofendido, só dizia: — “Calma, meu bem, calma”. Por fim, mais controlada, disse tudo: — “Você vai-me fazer um favor. Vai dar um tiro nesse miserável”. Num espanto aterrado, ele balbuciou: — “Tiro, eu? Meu bem. Eu não sou de dar tiros”. E a outra: — “Quer dizer que você é covarde?”. Respondeu: — “Não sei se sou covarde. Assassino, não sou”. Ela esganiçou-se no telefone: — “Escuta! Escuta! Na próxima vez, ele vai-te dar na cara. E você vai apanhar calado?”. Disse, manso como um santo: — “É mais forte do que eu. Não posso brigar fisicamente. Apanho, mas não mato. Nada me fará matar!”. Romperam no telefone. E a menina acabou voltando para o ex-namorado.

Em Hong Kong, o colega foi testemunha da mais linda e silenciosa história de amor. Conta Marcos André que certo milionário brasileiro foi traído pela esposa. Quis gritar, mas a infiel disse-lhe sem medo: — “Eu não amo você, nem você a mim. Não temos nenhum amor a trair”. O marido baixou a cabeça. Doeu-lhe, porém, o escândalo. Resolveu viajar para a China, certo de que a distância é o esquecimento. Primeiro, andou em Hong Kong. Um dia, apanhou o automóvel e correu como um louco. Foi parar quase na fronteira com a China. Desce e percorre, a pé, uma aldeia miserável. Viu, por toda a parte, as faces escavadas da fome. Até que entra na primeira porta.
Tinha sede e queria beber. Olhou aquela miséria abjeta. E, súbito, vê surgir, como num milagre, uma menina linda, linda. Aquela beleza absurda, no meio de sordidez tamanha, parecia um delírio. O amor começou ali. Um amor que não tinha fim, nem princípio, que começara muito antes e continuaria muito depois. Não houve uma palavra entre os dois, nunca. Um não conhecia a língua do outro. Mas, pouco a pouco, o brasileiro foi percebendo esta verdade: — são as palavras que separam. Durou um ano o amor sem palavras. Os dois formavam um maravilhoso ser único. Até que, de repente, o brasileiro teve que voltar para o Brasil. Foi também um adeus sem palavras. Quando embarcou, ele a viu num junco que queria seguir o navio eternamente. Ele ficou muito tempo olhando. Depois não viu mais o junco. A menina não voltou. Morreu só, tão só. Passou de um silêncio a outro silêncio mais profundo.

Pouco depois chegou a vez de Glauber. Outra ovação formidável. O grande público não gosta dos seus filmes, não entende seus filmes. Mas é outro gênio. Chamam-no de maluco. A figura que tenha essa lenda de insânia fascina o povo. Lembro-me de um conhecido que foi ver Terra em Transe e veio-me dizer, deslumbrado: – “Não entendi nada”. Estava gratíssimo ao filme e ao seu autor.

Vamos aos fatos.
Um jornalista norte-americano resolveu assistir à peça de Norma Bengell. Ouviu dizer que se tratava de atriz notável, um valor internacional, e quis ver. Foi à bilheteria, adquiriu e pagou os ingressos, deixou uma propina e foi à vida. Na hora própria, ou melhor, com meia hora de antecedência, estava na porta do teatro. Soube, então, que não havia espetáculo. Deixou passar três ou quatro dias e voltou à bilheteria. Perguntou, com sotaque: — “Há espetáculo?”. Havia. E, novamente, comprou os ingressos, pagou e deixou uma propina. Mais tarde, e antes de sair de casa, telefonou para o teatro. Fez a honrada pergunta: — “Há espetáculo?”. Havia.
Lá se mandou ele com todos os convidados. Chega e sabe: — não havia espetáculo. A partir de então, passou a desconfiar que há qualquer coisa de errado, não só no teatro, como no próprio Brasil. Deixou passar mais uns cinco dias. E volta à bilheteria. Pergunta: — “Há espetáculo?”. Havia. Pela terceira vez, comprou os ingressos, deu a propina e partiu. Dez minutos antes de abrir o pano, liga para a bilheteria e pergunta: — “Há espetáculo?”. Resposta: — “Há”. O desgraçado pergunta: — “Posso ir?”. E do outro lado: — “Pode vir”. O americano junta os convidados e chega ao teatro em cima da hora. E o apunhalam com a notícia: — não havia espetáculo. Desta vez, o que era simples e difusa angústia tornou-se pânico total. O homem e os convidados começaram a achar que o Brasil está louco.
Mas não desistiu. Deixou passar mais dois dias. Ei-lo de volta ao bilheteiro. Desta vez, os convidados o acompanharam, todos mortalmente interessados naquele suspense insuportável. Cada um perguntou: — “Há espetáculo?”. A resposta foi uma só: — “Sim, senhor”. Desta feita ninguém foi para casa. Todos se reuniram num boteco próximo e lá ficaram, esperando a hora de subir o pano. Um processo de angústia instalara-se no grupo. E, quando chegou o momento, lá foram eles. Ou por outra: — primeiro, foi um voluntário fazer um reconhecimento. Informaram que havia o espetáculo.
Voltou com a grande notícia: — “Há espetáculo”. Todos se juntaram, numa euforia feroz, e foram para a porta do teatro. Não havia espetáculo, simplesmente não havia espetáculo. Não era mais possível nenhuma dúvida ou sofisma. Aqueles sujeitos se convenceram e, para sempre, do seguinte: — não haveria espetáculo nunca mais, nunca mais. Daqui a duzentos anos, na hora de subir o pano, virá um funcionário avisar: — “Não há espetáculo”. O tal americano está convencido de que os nossos atores, as nossas atrizes, não representam, de que os nossos diretores não dirigem, de que os nossos cenógrafos não fazem cenários.

d’O Óbvio Ululante:

Primeiro, o homem não sabia estar só. Andava sempre em hordas ululantes. E quando, por acaso, desgarrava dos demais, uivava até morrer. Era assim o medo que juntava os homens e repito: — a multidão nasceu do medo. E o ser humano só se tornou humano, e só se tornou histórico, quando aprendeu a ficar só.
O primeiro solitário foi também o primeiro homem. E, depois, outros, e outros, e outros, fundaram novas solidões. O homem começava a ser homem. E um poeta dizia, no final do século passado: — “Humano é aquele que ‘está mais só’”.
Claro que as multidões não morrem, porque o medo está cravado no homem. E é o medo que nos junta em assembléias, em comícios, em maiorias, em unanimidades. Eu diria que não há nada mais forte e criador do que o medo. (Não sei se estou sendo claro.) Eis o que eu queria, finalmente, dizer: — assim como faz a multidão, o medo também faz o líder.

Como me arrependo de não ter dito: — “Sofra. Não tenha medo de sofrer. E não esqueça, nunca, nunca”.
É de Neruda, do Neruda da primeira fase, este verso: — “Tão curto o amor e tão longo o esquecimento”. Ai de nós, ai de nós! Não fazemos outra coisa senão esquecer. E, se alguém não esquece, nós pensamos logo em “tratamento psiquiátrico”. É uma inversão cruel e estúpida. Os psiquiatras e os psicanalistas deviam-se incumbir dos que esquecem fácil.

E conversamos de tudo. Houve um momento em que o Celso abriu o coração. Fala: — “A morte do meu pai”. E acrescenta, como quem pede desculpas: — “Ainda não me recuperei”. Por um momento, tive vontade de pedir-lhe: — “Nem se recupere, nunca, nunca”. Eis a nossa degradação: — sofrer menos, cada vez menos, até esquecer. Desde menino sou um fascinado pela grande dor (acho que a grande dor não passa jamais). E não disse nada ao Celso, não lhe fiz o apelo: — “Sofra, sofra”.

O poeta vira-se para mim e faz-me esta acusação horrenda: — “Você é um reaça!”. Tremo em cima dos sapatos. Ele insiste: — “Você acusa as esquerdas com argumentos da direita!”.
Eu, “pálido de espanto” como no soneto, viro-me para o Callado. Digo: — “Foi você que me traiu, Callado!”. — e repeti, de olho rútilo e lábio trêmulo: — “Você!”. E, de fato, tempos atrás, eu me encontrei com o doce radical num terreno baldio. Era meia-noite, hora que, segundo Machado de Assis, apavora. O sino da matriz dá as doze badaladas. Eu e o Callado estamos embuçados e de chapelões de Michel Zevaco. Alhures, uma coruja rosna (nas minhas “confissões” as corujas rosnam). E, então, cochicho para o doce radical: — “Callado, vou contar-te uma que eu só diria ao médium, depois de morto. Você jura que não me trai?”. O romancista estende a mão sobre uma Bíblia invisível: — “Juro!”.
Com um riso terrível, declarei: — “Eu sou a encarnação abominável da direita!”. À luz dos archotes, Callado balbucia: — “E te pagam pra isso, meu bom Nelson?”. A minha satisfação é hedionda: — “Não espalha, mas ganho um tutu forte!”.

(…) qualquer um tem seus íntimos pântanos, sim, pântanos adormecidos. É preciso não despertá-los. Mas certos acontecimentos acordam a lama do seu negro sono. Quando isso acontece, a alma começa a exalar o tifo, a malária, e a paisagem apodrece.

Mas continuava irrespondida a pergunta: — “Se eu fosse milionário, que faria eu?”. Pensei, pensei e, por fim, disse: — “Se eu fosse milionário, e americano, compraria um veleiro branco”. Bem sei que isso, dito assim, num sarau afetadíssimo, pode parecer uma resposta também afetada e subliterária. (…).
(Se descontarmos, porém, a subliteratura, o veleiro branco é uma das minhas utopias mais obsessivas. Sempre delirei com uma viagem absurda. Basta dizer que eu não desembarcaria nunca. A meu ver, o que imbeciliza a viagem é o desembarque obrigatório. Tão simples não desembarcar jamais. E eu não desceria nunca do veleiro. Nem teria nenhuma nostalgia das praias eternas. E me sentiria ébrio dos horizontes marinhos.)