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Eric Voegelin sobre as mudanças de sentido das palavras

No labirinto da linguagem corrompida, a busca determinada de um caminho que leve à realidade e sua adeqüada expressão lingüística desvela certas regras nem sempre agradáveis aos intelectuais contemporâneos. A primeira delas, metodológica, talvez o mais importante preceito de meu trabalho, é retornar às experiências que engendram os símbolos. Atualmente, nenhum símbolo de linguagem pode ser aceito bona fide, pois a corrupção chegou a tal ponto que tudo deve ser visto como suspeito. Ao empenhar-me nessa busca, descobri que era preciso investigar o sentido de filosofia como um símbolo criado pelos filósofos clássicos, determinando seu significado com base nos textos. Deslocamentos semânticos como os sofridos por esse símbolo ao longo do tempo devem ser estabelecidos com cautela, remetendo os símboloso ao seu sentido original. Somente com esses estudos comparativos podemos julgar se uma mudança de sentidos se justifica (por incorporar aspectos da realidade que estavam ausentes do sentido original) ou não (por excluir certos elementos a fim de construir um conceito novo e incompleto).

Essa regra da investigação analítica desperta com freqüência a oposição de intelectuais, como já pude testemunhar em tantos debates. Eles insistem no direito de atribuir às palavras o significado que bem entendam. A existência de um critério baseado no fato histórico de que as palavras não estão soltas na língua, mas são criadas para expressar experiências, é fervorosamente contestada. Preferem o que eu chamo de filosofia Humpy-Dumpty da linguagem: para eles, definir os sentidos de uma palavra é uma prerrogativa do intelectual que não pode ser submetida a críticas.

trecho das Reflexões Autobiográficas de Eric Voegelin