meu entulho querido

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Fradique Mendes sobre os políticos

“(…) Lisboa é uma cidade alitterada, afadistada, catita e conselheiral. Ha litteratice na simples maneira com que um caixeiro vende um metro de fita; e nas proprias graças com que uma senhora recebe, transparece fadistice; mesmo na Arte ha conselheirismo; e ha catitismo mesmo nos cemiterios. Mas a nausea suprema, meu amigo, vem da politiquice e dos politiquetes”.
Fradique nutria pelos politicos todos os horrores, os mais injustificados: horror intellectual, julgando-os incultos, broncos, inaptos absolutamente para crear ou comprehender idéas; horror mundano, pressuppondo-os reles, de maneiras crassas, improprios para se misturar a naturezas de gosto; horror physico, imaginando que nunca se lavavam, rarissimamente mudavam de meias, e que d’elles provinha esse cheiro morno e molle que tanto surprehende e enoja em S. Bento aos que d’elle não têm o habito profissional.
Havia n’estas ferozes opiniões, certamente laivos de perfeita verdade. Mas em geral, os juizos de Fradique sobre a Politica offereciam o cunho d’um preconceito que dogmatisa – e não d’uma observação que discrimina. Assim lh’o affirmava eu uma manhã, no Braganza, mostrando que todas essas deficiencias de espirito, de cultura, de maneiras, de gosto, de finura, tão acerbemente notadas por elle nos Politicos – se explicam sufficientemente pela precipitada democratisação da nossa sociedade; pela rasteira vulgaridade da vida provincial; pelas influencias abominaveis da Universidade; e ainda por intimas razões que são no fundo honrosas para esses desgraçados Politicos, votados por um fado vingador á destruição da nossa terra.
Fradique replicou simplesmente:
– Se um rato morto me disser, – “eu cheiro mal por isto e por aquillo e sobretudo porque apodreci”, – eu nem por isso deixo de o mandar varrer do meu quarto.

Eça de Queiroz n’A correspondência de Fradique Mendes, p. 94 da minha edição com cheiro de Mirabel